Publicado em 18/11/2020.

Por Maria Fernanda Romero (INCQS/Fiocruz)

Mychelle Alves canal saúde1Foto: Reprodução Youtube

Mulheres negras e pesquisas de Covid-19 foi o tema do Boletim Corona do Canal Saúde, transmitido na última segunda-feira (16). Mychelle Alves Monteiro, chefe do Laboratório de Medicamentos, Cosméticos e Saneantes do Departamento de Química (DQ) do INCQS/Fiocruz, foi a entrevistada.

Conforme indicado pelo canal, a participação das mulheres na ciência tem aumentado nos últimos 20 anos, mas não na mesma velocidade quando o assunto é cor da pele. Mychelle Alves é uma das poucas mulheres à frente de pesquisas, especialmente as da Covid-19.

"Somos muito poucas. Ainda há muito a se avançar. Nós, mulheres negras, somos a maioria da população, mas infelizmente nós estamos na base da pirâmide. Mulheres negras cientistas são poucas. Além de sermos poucas, nós vivemos muito na invisibilidade. Precisamos criar espaço de representatividade, porque as negras precisam saber que podem estar em todos os espaços. Não ocupar somente os espaços que reservaram para a gente, mas conquistarmos espaços que somos capazes de estar", comentou.

Mychelle disse que o governo vem dando alguns passos. Lentos, mas estão dando. Ela contou que a cidade do Rio de Janeiro deu o primeiro passo com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com ações afirmativas e a criação das cotas raciais, que depois foram aplicadas às demais universidades federais. "Hoje temos cotas em estágios e concursos públicos, além disso a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) determinou o dia no dia 11 de fevereiro como o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência", afirmou.

No âmbito da Fiocruz, a servidora, que é integrante do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fundação, relembrou que a instituição recebeu em fevereiro deste ano, 50 meninas de escola pública, que passaram um dia nos laboratórios de diversas unidades. Ela indicou ainda o projeto recém lançado 'Meninas Negras na Ciência: a divulgação científica como estratégia de promoção da saúde, cidadania e empoderamento', que conta o patrocínio da Merck (saiba mais aqui).

"Projetos como esse impulsionam as meninas a sonharem em serem cientistas e verem que são capazes. É muito importante termos essa representatividade. Na minha época, eu não via muita representativa, mas tive oportunidade de fazer um curso técnico de química e fiz. Por isso digo que não foi eu que escolhi a química, a química que me escolheu. A ciência transformou a minha vida e hoje fico feliz de ver que as meninas tem mais oportunidades", disse.

Mychelle Alves canal saúde2Foto: Reprodução Youtube

De acordo com Mychelle, o racismo está atrelado fortemente ao fato de que não tivemos políticas públicas que permitissem a inserção do negro e da negra na sociedade e que o melhor caminho ainda é ampliar a educação pública e de qualidade, ampliar o acesso, e promover condições dos negros se manterem na universidade.

Questionada sobre o seu trabalho durante a pandemia, Mychelle contou que o trabalho tem sido intenso. O setor de Cosméticos e Saneantes do INCQS é responsável pelas pesquisas e fiscalização do álcool etílico 70%, seja ele na forma líquida ou em gel. "A demanda pelo álcool aumentou muito por causa da pandemia, inclusive devido à falta dele no mercado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disponibilizou a comercialização dele na forma líquida. O nosso papel é fazer o controle de qualidade desses produtos para ter de fato a ciência de que ele tenha a dosagem correta e promova a saúde pública da população", explicou.

Sobre o protagonismo feminino e questões raciais no meio científico, Mychelle pontuou que atualmente as negras estão mais na área da ciência social do que nas exatas e biológicas. Segundo ela, a ciência está muito em alta agora por causa da pandemia e isso naturalmente deve aumentar o interesse de outras mulheres pela área de ciências. Mas, fazendo o recorte racial, ela acha que a pandemia dificulta muito as mulheres negras a sonharem. "Muitas se quer tem acesso à internet, não tem acesso à computador, às vezes é só um celular para a família inteira acompanhar uma aula. Isso tudo dificulta. O interesse aumenta sim, mas o acesso da população negra, da população pobre, vai ser muito comprometido nos próximos anos devido à essa pandemia", concluiu.

Assista a transmissão completa do programa aqui.