Publicado em 08/05/2019.
Por Penélope Toledo (INCQS/Fiocruz)


Imagens de Divulgação

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que em 2020 a depressão será a segunda maior causa de afastamento do trabalho. Para discutir o sofrimento psíquico relacionado à atividade laboral, o INCQS/Fiocruz promoveu a palestra Saúde mental e trabalho em 30 de abril, ministrada pelas profissionais da Coordenação de Saúde do Trabalhador (CST- Cogepe), Cecilia de Aquino e Denize Nogueira. A exposição integrou a Semana do Trabalhador e da Trabalhadora do Instituto.

Foto: Pedro Paulo Gonçalves

Na palestra elas abordaram conceitos fundamentais do campo da saúde do trabalhador e as relações entre o trabalho e a saúde mental, desgaste e transtornos mentais, além de desafios para os profissionais da saúde, dentre outras.

 

Sofrimento psíquico relacionado ao trabalho:

De acordo com as palestrantes, o sofrimento psíquico relacionado ao trabalho é antigo, de modo que o médico Bernardino Ramazzini apontou casos de tipógrafos e escriturários com este problema em 1700. O filme Tempos modernos, de 1936, também retrata a relação entre os modos de produção taylorista/fordista e a saúde mental.

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde indicam o crescimento contínuo, ao longo dos anos, das notificações de transtornos mentais relacionado ao trabalho. Os principais transtornos notificados estão relacionados à reação ao “estresse” grave e transtornos de adaptação (47%), episódios depressivos (24%), outros transtornos ansiosos (17%) e transtorno depressivo recorrente (7%).

Os motivos são muitos, com destaque para situações como sobrecarga de trabalho ou complexidade da tarefa, subcarga (atividade monótona, repetitiva), controle excessivo, insegurança no emprego, falta de apoio social, difícil interface entre trabalho e casa (horários inflexíveis, imprevisíveis, jornadas extensas etc), iniquidade e injustiça em critérios de promoção e salário, e violência psicológica. Ainda de acordo com as profissionais da CST, a fragmentação dos coletivos, o tensionamento das relações de trabalho e a degradação da convivência podem levar a um sofrimento intenso e prolongado, podendo ter como desfecho o adoecimento do trabalhador.

 

Produção de saúde:

As palestrantes também discutiram o trabalho como produtor de saúde. Segundo elas, situações como criação de espaços de discussão e deliberação sobre o trabalho, reconhecimento profissional dos pares e das chefias, contribuição singular para a organização do trabalho, sentimento de pertencimento e oferecimento dos recursos necessários podem contribuir para transformar o sofrimento em prazer e saúde.

Na Fiocruz, a Coordenação de Saúde do Trabalhador desenvolve ações em saúde mental e trabalho, com vistas a contribuir na direção de produção de saúde e o fortalecimento dos coletivos de trabalho, sempre com a perspectiva do protagonismo desses trabalhadores. Estas iniciativas vão desde atividades de integração institucional, como seminários e rodas de conversa abordando os processos de organização do trabalho e as interfaces com a saúde, até a construção de métodos de intervenção nos ambientes, processos e relações de trabalho. Além disso, permanece sempre aberto a todos os trabalhadores o acolhimento de psicologia e de serviço social no Núcleo de Saúde do Trabalhador (Nust/CST).