Publicado em 05/12/2025.
Por Maria Fernanda Romero (INCQS/Fiocruz)
Em celebração ao Dia da Consciência Negra e Zumbi dos Palmares, o INCQS/Fiocruz promoveu, no dia 18 de novembro, o evento Novembro Negro com o tema letramento racial. O encontro reuniu trabalhadoras, trabalhadores e convidados para uma tarde de reflexão e diálogo. A programação contou com palestra sobre letramento racial, roda de conversa sobre algumas trajetórias negras no instituto, e apresentação cultural dos Pratas da Casa, reforçando o compromisso institucional com a equidade racial. O evento foi promovido pela Comissão Interna de Respeito à Diversidade (CIRD/INCQS), com apoio da Direção do INCQS e do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc-SN).
Na abertura, Mychelle Alves Monteiro, diretora do INCQS/Fiocruz, ressaltou que o enfrentamento ao racismo exige ação permanente. “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. A abolição incompleta e a persistência de violências mostram que ainda enfrentamos desigualdades estruturais. A busca por igualdade racial é um processo que pode levar décadas, e precisamos manter o compromisso coletivo, porque não é fácil viver nesta pele neste país”, afirmou.
Representando a Coordenação de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas (Cedipa/Fiocruz), Flávia dos Santos Paixão, destacou a importância do cuidado e da coletividade. “Celebrar a vida e reconhecer nossas ancestralidades é fundamental, especialmente diante do cenário que vivemos no Rio de Janeiro. Equidade e letramento racial precisam ser compromissos permanentes. Transformação real exige políticas estruturadas, participação efetiva e abertura para saberes diversos”, indicou.
Da parte do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, Lucilene Freitas, reforçou o caráter contínuo do trabalho institucional, afirmando que promover equidade não é um gesto pontual, e sim um processo. "O letramento racial nos convoca a revisar práticas, ampliar escutas e transformar rotinas. A Fiocruz só cumpre seu papel estratégico quando afirma que não há ciência ou saúde sem diversidade e enfrentamento ao racismo”, completou.
Já Ronald Santos Silva, do Departamento de Farmacologia e Toxicologia (DFT) do INCQS, representante da Gestão Colegiada da CIRD/INCQS, enfatizou que transformações sociais começam pela mudança de linguagem e de percepção. “Precisamos revisar conceitos, reconhecer como o racismo organiza nosso cotidiano e enfrentar os mecanismos de controle que reproduzem desigualdades. O letramento racial é essencial para construir novas formas de atuar”, explicou.
A importância do letramento racial no cotidiano institucional
A palestra principal, conduzida por Regimarina Soares Reis, pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), aprofundou o conceito de letramento racial como ferramenta essencial para compreender e transformar as dinâmicas de desigualdade presentes na sociedade e nas instituições públicas. A pesquisadora destacou que o racismo não se limita a atitudes individuais, mas estrutura práticas, planejamentos e políticas.
Segundo ela, compreender essa lógica é condição para produzir mudanças reais. “O letramento racial nos ajuda a enxergar como o racismo molda nosso imaginário, nossas relações de trabalho e nossas decisões institucionais. Ele opera distribuindo privilégios e desigualdades, inclusive quando não percebemos. Por isso, é fundamental reconhecer como essa estrutura se organiza para que possamos transformá-la”, afirmou.
Regimarina também ressaltou que enfrentar o racismo implica revisar métodos, escutas e prioridades no serviço público. “Quando entendemos como o racismo funciona, tanto sobre pessoas negras quanto sobre pessoas brancas, conseguimos atuar de forma mais consciente, responsável e crítica. Letramento racial é, acima de tudo, compromisso com uma sociedade verdadeiramente justa e com instituições que reflitam esse princípio”, disse.
Vivências e desafios das trajetórias negras no INCQS
Após a palestra sobre letramento racial, o evento seguiu com a roda de conversa Trajetórias negras no INCQS, reunindo Elaine Lucia, do Serviço de Gestão do Trabalho (SGT) e também representante da CIRD; Ivone Rosa de Andrade, do Departamento de Imunologia (DI); e Valery Martinez Jean, do Departamento de Química (DQ). As falas trouxeram relatos pessoais marcados por conquistas, resistência e enfrentamento cotidiano ao racismo.
A servidora Ivone Rosa de Andrade, destacou os obstáculos vividos desde a formação acadêmica até a trajetória profissional. “Muitas vezes, mesmo estudando, me dedicando e fazendo tudo o que era necessário, eu não era vista como capaz. Para uma mulher negra, antes de ter a chance de mostrar competência, é preciso vencer a barreira do olhar que não nos acolhe. Hoje, sou mãe, profissional e mulher negra que segue abrindo caminhos, mesmo quando o entorno ainda insiste em duvidar”, discursou emocionada.
Valery Martinez Jean, haitiano e pesquisador do DQ, compartilhou o impacto de chegar ao Brasil e se deparar com o racismo pela primeira vez. “No meu país, todas as pessoas negras ocupam todos os espaços, professores, médicos, engenheiros, e eu nunca tinha vivido o que vivi aqui. Quando percebi o racismo, senti que precisava reafirmar quem eu sou: sou capaz, sou inteligente, e não preciso provar nada para ninguém. Uma pessoa negra pode fazer tudo que uma pessoa branca faz. O racismo existe, é real, mas a luta e a educação podem transformar o futuro dos nossos filhos”, informou.
A servidora e representante da CIRD, Elaine Lucia, ressaltou a importância da coletividade e das parcerias para romper desigualdades históricas. “Nossas trajetórias mostram que ninguém caminha sozinho. Precisamos da parceria de pessoas negras e também de pessoas brancas nessa luta. Venho de uma família com muitas dificuldades e sou a primeira a ter graduação. Minha conquista abre portas para minha filha e para outras mulheres. Queremos ambientes diversos, inclusivos, onde todas as pessoas possam existir plenamente. É assim que avançamos”, destacou.
A roda de conversa reforçou o valor do debate, da escuta e da presença negra no INCQS, fortalecendo a construção de um ambiente institucional mais justo, plural e antirracista.

Fotos: Pedro Paulo Gonçalves (DIR/INCQS)