Publicado em 04/11/2025.
Por Maria Fernanda Romero (INCQS/Fiocruz)
O Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) promoveu, no dia 1º de outubro, o evento intitulado como 'Sabedoria que inspira', em comemoração ao Dia Nacional e Internacional das Pessoas Idosas. Realizado no auditório Sérgio Arouca, no INCQS, o encontro reuniu especialistas e trabalhadores do instituto para celebrar a experiência acumulada ao longo da vida, refletir sobre o envelhecimento e discutir temas como cuidado, bioética e qualidade de vida.
A abertura foi conduzida por Mychelle Alves Monteiro, diretora do INCQS/Fiocruz, que destacou a importância de reconhecer e valorizar quem ajudou a construir a trajetória da instituição. “Este é um momento de celebração e de valorização de todos que contribuíram e continuam contribuindo para o INCQS. Cada pessoa que chegou aos 60 anos ou mais carrega saberes essenciais que fortalecem a nossa comunidade de trabalho. Vocês são inspiração para quem inicia sua trajetória e referência para todos nós, que seguimos aprendendo com seus exemplos de dedicação, compromisso e resiliência.”
A programação contou com duas palestras. A primeira, 'Trabalhar e cuidar de si e de outros', ministrada pela Dra. Dalia Elena Romero Montilla, professora, coordenadora do Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento (GISE), e coordenadora do Sistema de Indicadores de Saúde e Acompanhamento de Políticas do Idoso (SISAP-Idoso), do Icict/Fiocruz. Ela abordou as desigualdades que marcam o envelhecer no Brasil, e também destacou os desafios de equilibrar a rotina profissional, o autocuidado e o cuidado com outras pessoas.
“Tenho 64 anos e celebro poder envelhecer com vitalidade, mas sabemos que essa não é a realidade de todos. As desigualdades sociais e de gênero afetam diretamente o modo como envelhecemos. O cuidado não deve ser uma tarefa solitária, mas um compromisso compartilhado entre família, sociedade e Estado”, pontuou.
De acordo com Dalia Romero, falar de envelhecimento é falar de interdependência e da importância de ambientes de trabalho e de vida que apoiem o bem-estar de todas as gerações. "O envelhecer não é apenas um processo biológico, mas um aprendizado contínuo de autoconhecimento e de construção de vínculos. É importante olharmos para nós mesmos e para o outro com sensibilidade, reconhecimento e respeito”, disse.
Para a Dra, o envelhecimento precisa ser visto de forma integral, considerando as desigualdades sociais e de gênero que o atravessam. As mulheres, em especial, ainda são as que mais acumulam responsabilidades de cuidado, com filhos, familiares, companheiros e pessoas idosas, muitas vezes sem o apoio necessário do Estado e da sociedade.
“O cuidado não deve ser uma tarefa solitária, mas um compromisso coletivo. Família, comunidade e poder público têm papéis complementares nesse processo. Falar sobre envelhecimento é falar sobre direitos, sobre justiça social e sobre a necessidade de construir relações mais humanas e solidárias”, completou.
Já Dr. Ciro Augusto Floriani, médico geriatra do FioSaúde e professor, trouxe uma reflexão ética sobre o envelhecimento e o cuidado. Floriani comentou ainda que o Brasil, assim como muitos países do Sul Global, passa por um envelhecimento acelerado. Com isso, portanto, o país precisa repensar as políticas públicas, sistemas de saúde e valores éticos para incluir a velhice no centro das decisões.
"O cuidado, especialmente no fim da vida, é um tema que nos desafia eticamente. A recente Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), lançada em 2024, representa um avanço importante, pois reconhece que o cuidado deve estar presente em todo o ciclo da vida, não apenas como resposta à doença, mas como expressão de humanidade”, indicou.
Segundo o Dr, envelhecer não é sinônimo de fragilidade. A vulnerabilidade das pessoas idosas está muito mais nas condições sociais do que na idade em si. "É preciso enfrentar o etarismo e garantir dignidade e autonomia em todas as fases da vida. O envelhecimento é um processo que interpela a todos nós, individual e coletivamente. A bioética nos convida a refletir sobre como as instituições e as relações sociais podem garantir dignidade, respeito e cuidado às pessoas idosas”, explicou.
Encerrando o evento, Mychelle Alves Monteiro reforçou o compromisso institucional com a construção de um ambiente cada vez mais inclusivo e respeitoso. “Que este seja um dia de aprendizado e inspiração, em que possamos reafirmar que a experiência é um dos nossos maiores patrimônios. A sabedoria de cada trajetória fortalece o presente e o futuro do nosso Instituto”, concluiu.
Fotos: Pedro Paulo Gonçalves (INCQS/Fiocruz)