Publicado em 25/06/2025.
Por Pablo Pires (INCQS/Fiocruz)
*DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA*

Matheus Grilo é autor de estudo do INCQS/Fiocruz que serviu de referência para liberação da castanha de baru para a União Europeia. Foto: Pedro Paulo Gonçalves (INCQS/Fiocruz)
Um grupo de pesquisa do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) da Fiocruz desenvolveu e publicou a primeira metodologia analítica para verificar micotoxinas na castanha de baru, uma oleaginosa nativa e um dos símbolos culturais do cerrado brasileiro. A publicação serviu de base para que a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) emitisse um parecer sanitário positivo para a castanha; fato que abre a possibilidade de sua exportação para a União Europeia. Tal medida pode impactar positivamente a vida de milhares de famílias do cerrado, em especial as das pequenas comunidades, cuja economia gira em torno da oleaginosa.
No cenário nacional, a castanha de baru vem ganhando destaque por suas excelentes propriedades sensoriais e nutricionais. Esse interesse motivou o grupo de pesquisa do INCQS a investigar os aspectos da segurança alimentar do produto, uma vez que esse tipo de alimento pode eventualmente ser afetado por toxinas produzidas por fungos – as chamadas micotoxinas, que são potencialmente prejudiciais à saúde humana. De acordo com Matheus Grilo, autor do estudo do INCQS, até aqui foram encontrados resultados promissores, atendendo às principais normas sanitárias nacionais e internacionais e, de acordo com o parecer da EFSA, o baru não apresenta preocupações relativas à segurança alimentar. Grilo atribui essa característica possivelmente ao fato de o baru ser colhido durante o período de seca do cerrado, o que favorece uma menor proliferação de fungos.
Grilo também chama a atenção para o fato da produção de castanha de baru transcender o aspecto puramente econômico. “Além de ser uma importante fonte de renda para as pequenas comunidades tradicionais, o baru é coletado de forma sustentável e ajuda na preservação do ameaçado bioma do cerrado”, explica o pesquisador.
O estudo de Grilo é um desdobramento de seu mestrado profissional, concluído na pós-graduação do INCQS. Premiado anteriormente em um evento voltado para a ciência dos alimentos, foi publicado na conceituada revista holandesa Food Control, com o título “Multi-mycotoxins and mycoflora in commercial Brazilian roasted baru nuts (Dipteryx alata vog)” (edição número 168, de 2025).

A castanha de baru vem ganhando destaque por suas excelentes propriedades sensoriais e nutricionais. Imagem de Divulgação.
SAIBA MAIS - O QUE É O BARU
A castanha
A castanha de baru torrada possui um sabor próximo ao do amendoim, com a diferença de ser mais suave ao paladar. Pode ser simplesmente ingerida ou incluída em diversas receitas como pé-de-moleque, paçoca, rapaduras, cajuzinhos, bolos e tortas. Além disso, ela pode ser processada em barra de cereais nutritivas e em pastas. Em relação aos aspectos nutricionais, a castanha de baru é uma importante fonte de proteínas, lipídeos e sais minerais.
O fruto
Já o fruto do baru possui propriedades terapêuticas anti-inflamatória, antioxidante, antirreumática, cicatrizante, além de relatos do uso para aumentar a fertilidade, já que é rico cem zinco. O baru é um fruto do tipo drupa, carnoso que possui uma única semente em seu endocarpo. Todo seu conteúdo pode ser aproveitado: a semente é torrada; a polpa possui um sabor adocicado, com coloração amarelada, e pode ser utilizada para a confecção de farinhas e licores ou para a alimentação animal na agropecuária em período de escassez hídrica; o endocarpo endurecido pode ser utilizado como carvão, devido ao seu alto valor calorífero. Por fim, o baru é um dos poucos frutos que amadurecerem no período de seca do cerrado; tornando-o fundamental para a fauna – por exemplo, para os morcegos do cerrado e para arara-azul do pantanal mato-grossense.
A árvore
O baru é obtido do barueiro, uma planta nativa do cerrado brasileiro e presente em diversos Estados do país. Sua cultura é de grande relevância para a manutenção daquele bioma, já que a árvore, robusta, possui elevada taxa de germinação e sobrevivência de suas mudas durante o plantio. Assim, o barueiro é comumente utilizado para prática de replantio de áreas degradadas do cerrado.