Publicado em 21/09/2020.

Por Maria Fernanda Romero (INCQS/Fiocruz)

marisa adati incqsImagem: Captura de tela

A pandemia do coronavírus tem fomentado diversos desafios na saúde pública para o seu enfrentamento a nível mundial. Marisa Coelho Adati, chefe do Laboratório de Sangue e Hemoderivados do INCQS e sua equipe, estão a frente das análises de controle da qualidade dos testes rápidos da Covid-19, contou durante a live de celebração dos 39 anos do Instituto, que para atender o aumento de demanda, a equipe do laboratório teve que se reinventar diante das limitações de segurança e prevenção impostas para o trabalho.

A equipe de 18 profissionais foi reduzida a 12 nos 02 primeiros meses de enfrentamento da Covid-19, pois tiveram que afastar 06 profissionais, com mais de 60 anos. Para atender a demanda analítica com segurança e evitar aglomerações, os meses de março e abril, foi elaborado uma escala de profissionais no laboratório mantendo, praticamente, 06 profissionais trabalhando normalmente os 05 dias da semana em horário comercial. Neste período, foi providenciado maior quantitativo de jalecos descartáveis, luvas e máscaras descartáveis (trocando a cada 2 horas), além do álcool 70, disponibilizado em todo o laboratório.

"Além disso, por se tratar de uma infecção sem conhecimento científico prévio, foi inicialmente utilizados matrizes de análise como soro, plasma e sangue total (consideradas 'matrizes seguras'), evitando com isso, a matriz de análise swab de naso e ou orofaringe, utilizadas para amostras de vírus respiratório. Na sequência e depois de passados 3 meses da infecção foi iniciada a análise de kits para antígeno, no qual utiliza amostras utilizando swab de nasofaringe de pacientes com suspeita de COVID-19, amostra fresca, onde não se tem reprodutibilidade e rastreabilidade da amostra. O que foi algo extremamente novo para nós", explicou. Para o sucesso desse trabalho, a equipe considerou fundamental o apoio do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) na obtenção das amostras positivas e negativas.

Marisa Adati relembrou que o laboratório iniciou suas atividades realizando o controle de qualidade de kits sorológicos para o diagnóstico do HIV em 1985, que a partir de 1998 o setor abrangeu o controle de qualidade de diferentes marcadores sorológicos e moleculares, quando aplicável, como HIV, HTLV, HBsAg, HCV, Doença de Chagas e Sífilis, e a partir de 2016, um outro grande desafio foi a incorporação de novos marcadores sorológicos e moleculares devido ao surto de Dengue, Chikungunya e Zika.

"2016 foi um ano bem semelhante a esse, pois foi um período bastante trabalhoso, de enorme desafio também, mas que superamos. Com a Covid-19 continuamos avançando, construindo o nosso portfólio para atendimento de doenças infecciosas", afirmou.

Durante sua apresentação, a chefe do laboratório ressaltou que com a emergência de saúde pública internacional da Covid-19, a demanda do laboratório aumentou significativamente, principalmente a partir de abril, com a promulgação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC)379/2020, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que autoriza os importadores a comercializar seus produtos sem registro de forma extraordinária e temporária.

"A condição para que esses produtos fossem comercializados no Brasil, sem registro, foi determinado nesta Resolução, durante o desembaraço alfandegário a empresa deverá encaminhar ao INCQS amostragem de 100 testes. As análises que antes tinham apenas cunho técnico, análises prévias agora têm cunho jurídico-legal" pois foram coletadas amostras para análises fiscais, previstas na Lei nº 6437/77, explicou Adati.

A representante do DI/ INCQS comentou ainda sobre uma importante conquista do setor em junho deste ano, o Programa de Monitoramento de Produto Pós Mercado. Iniciativa, segundo ela, esperada por todos há um longo tempo, cujo objetivo é aferir, por meio de ensaios laboratoriais, o desempenho técnico dos produtos que estão sendo viabilizados no mercado nacional, visando garantir a segurança e a eficácia dos testes.

Adati finalizou sua participação afirmando que este é um momento riquíssimo para a área de saúde e que precisamos refletir sobre o que queremos construir em prol da saúde pública do Brasil.

"A Covid-19 é um grande desafio para testarmos nossas reflexões, conquistas, mas acima de tudo para termos certeza de que estamos no caminho certo. Tivemos coragem e destemor de enfrentar esse desafio. Parabéns INCQS, porque conseguimos entender, aceitar e continuar construindo o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária nesse país, assim como o Sistema Único de Saúde (SUS) como parte integrante que somos", concluiu.

O Laboratório de Sangue e Hemoderivados do INCQS trabalha ainda em dois projetos atualmente: um com a Fiocruz através da Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz (CVSLR), e outro com a Anvisa e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que consiste na implantação e implementação do controle de qualidade de medidores de tiras de glicose, produtos esses, de grande importância ao setor da saúde pública.